• Alan da Silveira

10 Ações que Petrolina e o sertão podem tomar antes de diminuir a política de distanciamento social






Muito tem se discutido nos últimos dias sobre a possibilidade de abertura do comércio na região do Vale do São Francisco e é compreensível que muitos empresários estejam preocupados com o futuro e lutem pela abertura dos seus negócios. Já estamos há 1 mês cumprindo as medidas de distanciamento social e os prejuízos já acontecem em muitos micro e pequenos negócios, coluna da nossa economia. Até mesmo a prefeitura sofrerá impactos na arrecadação com essas medidas.


Na última semana, os números de casos confirmados e mortes vêm aumentando significativamente no país. Infelizmente, temos recebido notícias chocantes vindas do Norte com o possível colapso do sistema de saúde de Manaus. Pernambuco também vem despontando como um dos Estados em situação mais grave no Brasil, devido a uma altíssima quantidade de mortes. Nossa curva cresce periodicamente e, como uma onda, vai se espalhando da capital para o sertão aos poucos – já contamos com 116 cidades com casos confirmados e, se seguirmos assim, seremos o primeiro estado com todas as cidades com casos confirmados.


O crescimento desses dados acendeu um alerta nos cientistas do mundo todo sobre a possibilidade de não termos achatado a curva e estarmos crescendo rápido demais. Isso é notável com as recentes declarações do Presidente dos EUA e do Secretário Geral da ONU sobre a preocupação que estão tendo com o Brasil e com o nosso crescimento alarmante em casos.


Infelizmente, esse não é o único problema. O principal e que nos deixa ainda mais preocupados com o futuro é o fato de não estarmos testando. Somos um dos países que menos testa no mundo e que os dados são ainda pouco confiáveis. Ora, a saúde brasileira nunca foi referência em dados, principalmente no interior, e com uma pandemia em que a testagem é quase que escassa e que, por conta de crises políticas, não dispomos de muitos testes nem nas capitais, fica difícil saber como, de fato, está a situação no interior.

Petrolina e região têm testado muito pouco ainda. Mesmo com as importantes ações da Prefeitura de comprar testes rápidos – o que já configura a maioria dos testes positivos na cidade – ainda não estamos testando o suficiente. O mais preocupante de tudo isso é que nossos hospitais não atendem só a nossa cidade, atendem uma população bem maior de prefeituras que não têm testado.


A nossa região, sem os hospitais de campanhas que serão instalados, só dispõe de 67 leitos de UTIs adulto e um pouco mais de 100 ventiladores pulmonares, muito importante para casos graves da COVID-19. Só Petrolina tem 10% de sua população idosa, que é o principal grupo de risco da doença. Com os hospitais de campanhas, conseguiremos aumentar a nossa capacidade, mas se houver um aumento significativo de casos na região – vale ressaltar que apenas Petrolina tem os testes rápidos – o nosso sistema poderá colapsar.

As duas principais cidades da Rede PEBA atendem a uma população de 2 milhões de habitantes e 53 municípios – muitos desses sem a infraestrutura necessária em caso de aumento de casos nas cidades. Levando em consideração uma estimativa positiva de que apenas 3% da população necessite de UTI por conta da Covid-19, não seremos capazes de atender. Nosso sistema não tem capacidade nem mesmo se levarmos em consideração apenas a população da cidade de Petrolina.


A comprovação de que não estamos testando fica clara a partir dos dados que o mnic´pi dispõe. Os testes que vão para o Estado demoram a sair e praticamente não víamos aumento algum na região, mas com a compra de testes rápidos e com o foco da prefeitura nessa modalidade, os casos positivos dobraram e a região entrou em estado de transmissão comunitária. Hoje, os testes rápidos respondem pela maior parte da comprovação de positivos na cidade.


Estamos de fato preparados para um aumento significativo de casos na região? Será que estamos preparados para uma abertura sem controle e sem planejamento do nosso comércio agora? Queremos de fato acreditar cegamente que o pior já passou, mesmo sem testar?


Veja uma questão interessante: dentro da geopolítica – estudo que leva em consideração as características geográficas e a relação entre processos políticos – há estudos ligados à influência política de cidades em determinados territórios nacionais. Pouco estudamos sobre isso, mas nos últimos meses, passei a estudar a geopolítica dentro do Estado de Pernambuco e é inegável o poder de influência de Petrolina e seus agentes políticos nas cidades do sertão pernambucano – a comprovação é notável quando pensamos onde se encontra o centro da Rede PEBA no que concerne à saúde. Não obstante, somos conhecidos como a capital do sertão.


Por isso, é importante entender que quando o poder público toma uma decisão, está influenciando uma rede muito grande de outros agentes políticos a seguí-lo. Portanto, a responsabilidade dos agentes políticos petrolinenses é grande, não só com o seu povo, mas com todo o sertão. Somos um governo estadual paralelo. Aos interesses do povo sertanejo, somos a capita, e aqui recai a obrigação de sermos responsáveis com nós mesmos e com os sertanejos.


Ora, antes de se pensar em abrir, é preciso que a nossa região, principalmente Petrolina, tendo em vista a sua capacidade de influência em todo o sertão pernambucano, tome algumas atitudes. Vale ressaltar que muitas podem ser tomadas antes mesmo de outras. Há ações mais importantes, mas todas são recomendações que, em minha opinião, precisam ser analisadas antes de pensarmos em diminuir as políticas de distanciamento social na cidade.


Tudo isso tendo um trabalho conjunto entre os poderes públicos, a sociedade civil e o setor privado. Trago, a seguir, 10 sugestões de atitudes a serem tomadas:


1. Criação de um grupo/comitê pós-pandemia;

2. Criação do “Conselho da Cidade – Superando a Pandemia”;

3. Criação de uma Comissão de estudo dentro do Poder Legislativo e participação do Poder Legislativo no Comitê pós-pandemia;

4. Criação de grupo de ação entre municípios do sertão – Poder Executivo e Poder Legislativo;

5. A rápida desburocratização da cidade para criação de equipamentos que incentivem a venda online;

6. Guia com Produtos e serviços para garantir a venda dos trabalhadores locais;

7. Incentivo a grupos de WhatsApp de empreendedores por bairro;

8. O incentivo do voluntariado e da doação;

9. Unidades Básicas e postos de Saúde com destinação exclusiva para casos gripais;

10. Unidades de Emergência: contêineres para atendimento exclusivo;


Essas são algumas das ações que acredito que sejam importantes e que devam ser iniciadas antes de que pensemos em abrir por completo o nosso comércio, mas principalmente, é importante que não só Petrolina, mas sim toda a região passe a testar mais para termos bons números e podermos realizar ações especificas.


Antes de terminar, é preciso relembrar a importância e a responsabilidade que Petrolina tem na região e que devemos, neste momento, trabalhar em conjunto para superarmos a crise em que vivemos. Pensar que conseguiremos nos isolar e só atender aos que vivem aqui é não entender a realidade em que estamos colocados.


Vale ressaltar que todas essas ações não precisam ser realizadas imediatamente e simultaneamente. Algumas são mais fáceis que outras e algumas são mais importantes que outras. Com a discussão, algumas podem se tornar inviáveis e outras ideias podem surgir, por isso, este documento será atualizado sempre que necessário.


Algumas certezas ficam:

1- Devemos trabalhar em conjunto com as outras cidades do sertão pernambucano;

2- As universidades petrolinenses e de todo o sertão são importantes neste momento, não só para evitar aglomeração, mas na disponibilização dos seus quadros mais preparados para o desenvolvimento de ações, estudos, coordenação e busca de resultados positivos;

3- É preciso que a nossa região teste mais;

4- Não há solução com achismos. Dados e ciência são imprescindíveis neste momento;


Não adianta abrir agora para fecharmos logo mais à frente. O sertão precisa ter coragem de tomar a dianteira no interior, trabalhar com ciência, dados, números e muito planejamento. Não podemos nos dar ao luxo de errar.


Para ter acesso ao estudo completo, com as explicações de cada ação, por favor, faça o download aqui.


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© 2020 por Alan da Silveira.